Atualidades/Automóveis

Propaganda automotiva e mulheres: um pouco de ‘mimimi’ feminista

(COLUNA ORIGINALMENTE PUBLICADA NO SITE AUTOS GIROS)

A Fiat lançou nesta semana o sedã Cronos com uma ação interessante nas redes sociais. Em diversos vídeos curtos, a montadora expôs os pontos positivos do veículo de maneira descontraída. Em um deles, sobre economia, a atriz tem a seguinte fala sobre o carro desejado: “Com certeza, um carro que rode muito e gaste pouco, porque olha, levar meu filho na escola, na natação, no inglês, no judô, toda hora, haja combustível!”

Esta fala me remeteu a uma propaganda do Fusca da década de 1970. Veiculada em impresso, ela mostra um homem vestido para o trabalho à esquerda e uma dona de casa com os filhos, à direita. Abaixo de cada personagem uma lista de suas atividades diárias e a pergunta: “Não é justo que ela tenha um Volkswagen só para ela?”

Propaganda_fusca_60

Claro que um abismo separa a mulher retratada na propaganda do Fusca da mulher atual. Não considero a propaganda da Fiat machista, porém, me gerou incômodo o fato de ser atribuída somente à mulher a responsabilidade pelas atividades dos filhos. Vejam bem, antes de me acusarem de mimimi feminista, sei que propagandas não servem para combater estereótipos, pelo contrário, elas se apropriam deles para gerar identificação. É bem possível que a intenção tenha sido destacar a rotina atribulada da mulher moderna, e, para isso, bastava incluir na lista algo relacionado a trabalho ou qualquer outra atividade que a mulher faça para si mesma.

Colocar a mulher em uma posição apenas de cuidadora dos filhos se aproxima de um estereótipo antigo. Em dissertação de 2007 para o programa de pós-graduação da Universidade de Brasília, Andréa de Almeida Lara analisa comerciais de veículos das décadas de 1950 a 1990 e conclui que o papel da mulher nestas peças mudou pouco ao longo dos 40 anos estudados.

“Repetiram-se nesses comerciais duas representações muito comuns em nossa sociedade: a mãe dona de casa, zelosa e preocupada com o bem-estar da família; e a mulher-objeto, reduzida a partes do corpo e sem fala. A terceira representação, mulher-cenário – que definimos na constatação de que sua presença ou ausência não influencia os comerciais – pode ser objeto de análises mais aprofundadas.”

Mas…avançamos muito! Olhem o anúncio abaixo, de 1960, e terão certeza disso.

Propaganda_mulher_Fusca_1960

Mulher não sabe dirigir

O estereótipo mais manjado quando se trata do binômio mulher-carro. Em 2013, a Ford foi criticada por utilizá-lo em uma divulgação de seu sensor de estacionamento. No vídeo, duas amigas aparecem aterrorizadas, como se estivessem perto de enfrentar uma situação de risco. A situação era uma baliza. Surpreendidas pelo sistema de estacionamento automático, elas se sentem fora de perigo.

Resgatar esse comercial me remeteu a outra situação vivida apenas um ano depois disso, no lançamento de uma montadora, em 2014. Os executivos apresentavam o novo carro para cerca de 80 jornalistas no centro de convenções de um hotel e decidiram nos mostrar as propagandas televisivas, que já haviam sido aprovadas, mas ainda não estavam finalizadas para veiculação. Um dos VTs destacava a praticidade do sensor de estacionamento, sobre o qual uma mulher exclamava: “Assim, até eu!”, numa clara referência à suposta falta de habilidade feminina como motorista.

No ato, uma jovem jornalista levantou e se declarou indignada com o preconceito exposto pela propaganda, no que foi seguida pela pequena leva de mulheres presentes. Lembro bem que os executivos ficaram sem graça e argumentaram que poderia ser qualquer pessoa naquele comercial, visto que o benefício do sistema era para todos. Porém, a escolha de uma mulher não foi aleatória e nós sabemos disso. Nunca vi a tal propaganda no ar.

Carro ajuda a pegar mulher

Outro estereótipo amplamente difundido e utilizado pela mídia. Em pesquisa para a coluna encontrei um comercial do Kia Sportage, de 2008, em que um padre dirige o SUV e várias mulheres viram o pescoço durante o trajeto para olhá-lo. No final, ele estaciona em frente à igreja e um rapaz vem ao seu encontro. O padre o agradece pelo empréstimo do carro, o elogia, e diz: “Mas reze 50 Ave Marias”. O rapaz responde: “Mas eu não fiz nada, padre”. E ouve em retorno: “Mas vai fazer, meu filho. Vai fazer.”

Outro exemplo que encontrei por acaso foi a propaganda das motos Honda abaixo. Mais direta, impossível!

Propaganda_honda_atual

Pelo mundo

Se você pensa que os bolas-fora na publicidade automotiva acontecem apenas no Brasil, está enganado. Em julho deste ano a Audi se viu obrigada a pedir desculpas por uma peça veiculada na China em que uma mulher era comparada a um carro usado.

Em 2008, a Mercedes-Benz também produziu um comercial altamente ofensivo, usando o estereótipo da “loira burra” para divulgar o novo Classe E. Não sei em que País o vídeo foi veiculado, nem se a montadora se desculpou por ele, mas deveria.

Acredito que estejamos avançando dia a dia na superação de estereótipos machistas e estes avanços se refletem e refletirão na publicidade. Um dia, o comercial do Mustang terminará com uma mulher saindo do carro pelo lado do motorista, e não do passageiro.

Cecília França

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