Atualidades/Automóveis

Somos trouxas? Porque pagamos tão caro nos automóveis

(COLUNA ORIGINALMENTE PUBLICADA NO SITE AUTOS GIROS)

Cecília França

Dias atrás um amigo me sugeriu, via whatsapp: “Faz uma matéria especial sobre como somos trouxas e pagamos praticamente o carro mais caro do mundo, já que carros nos EUA eles custam 30% do nosso!”, assim, com exclamação mesmo. E acrescentou: “O novo Civic top de linha está R$ 130 mil. Isso é o cúmulo do absurdo”. Sim, ele estava muito indignado.

Não é de hoje que o preço dos automóveis no Brasil indigna os consumidores. Pagamos o carro mais caro do mundo? Difícil afirmar, mas certamente eles custam mais aqui do que nos Estados Unidos, no México e nos vizinhos Paraguai e Argentina – para citar alguns exemplos.

Peguemos o exemplo do Honda Civic, citado na conversa acima. A versão citada por meu amigo é a Touring, mas já em sua versão EXL o sedã alcança R$ 105.900, enquanto no mercado norte-americano parte de US$ 23.800. Usando-se o câmbio de hoje (R$ 3,19), o sedã custa por aqui US$ 33.197. Para ter preço equivalente ao praticado nos EUA deveria custar R$ 75.922. Bem atrativo, não?

Civic-2017

Print do site norte-americano da Honda

Motivos

Lá em 2011, o jornalista automotivo Joel Leite apresentou em uma série de reportagens sobre os motivos dos altos preços dos veículos no Brasil. Seu trabalho motivou audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, em 2012, onde foram revelados dados importantes para entendermos como se formam os preços dos automóveis: 32% eram impostos; 10%, margem de lucro das montadoras e 58%, custo de produção e de distribuição (inclui valores de matéria-prima, mão-de-obra, logística, publicidade, entre outros). Em matéria de 2016 do jornal curitibano Gazeta do Povo, a Anfavea (associação das fabricantes de automóveis) já informa tributação mais elevada: entre 37,2% e 54,8%.

A margem de lucro de 10% sobre o valor final é três vezes maior que a margem praticada nos Estados Unidos (3%) e superior à média mundial, de 5%. Já a carga tributária, mesmo a de 32%, é infinitamente superior que a dos EUA (que não chega a 10%), México (16%), Argentina (21%) e Japão (5%). Diante de todas estas informações, podemos inferir que o combo carga tributária + lucro das montadoras é o grande vilão dos altos preços no Brasil.

Mais exemplos

Tomemos o carro mais vendido no mundo e a atual taxa de câmbio. O Corolla de entrada custa US$ 18.550 nos Estados Unidos e o equivalente a US$ 21.289 na Argentina. No Brasil, sai por salgados US$ 28.236 (R$ 91.990). É de matar.

Mais um exemplo do mercado argentino, agora em reais. O preço do Renault Captur começa em R$ 80.090 no Brasil; os vizinhos pagam R$ 78.336. Carros que aqui custam mais de R$ 100 mil, como Jeep Compass, poderiam girar em torno de R$ 72 mil com a carga tributária dos ‘hermanos’.

Corolla-2018

Diferença de preço do Corolla no Brasil e nos EUA é de quase US$ 10.000

Solução

Existe um fator que, teoricamente, deveria baixar os preços dos veículos para os consumidores (além, é claro, da redução de impostos, que dificilmente ocorrerá): a nacionalização dos componentes. O programa Inovar-Auto buscou essa nacionalização e muitas marcas aumentaram seus índices. No entanto, a crise econômica veio e parece ter afetado os planos das montadoras.

Em entrevista recente ao jornal Valor Econômico, o presidente da Volkswagen, David Powels, declarou que a montadora diminuiu seu conteúdo local de 90% para 75%. Isso significa maior importação de peças e mais custo. Ou seja, mais argumento para aumentar o preço final ao consumidor.

Em coluna no mês de agosto no site iG, o jornalista automotivo Sérgio Quintanilha fez uma comparação entre o valor do carro mais barato do mercado em 2015, o Palio, em 2016 e agora. Neste ano, o Palio mais barato custa R$ 45.240, um aumento de 11,5% em relação ao preço de 2016, enquanto a inflação no período foi de 3,1%.

Lucro. Isso explica porque durante a crise de 2015, por exemplo, as montadoras preferiram deixar de vender a baixar o preço para o consumidor final. “O resultado é uma distorção do mercado, com vendas despencando e preços registrando os maiores aumentos dos últimos dez anos.”, registrou a Agência Autoinforme na época.

Já em anos anteriores, com o mercado próspero e vendas bombando os preços caíram, forçados pela concorrência. Esse movimento do mercado joga por terra o argumento de que devemos deixar de comprar carros 0 km para forçar uma redução dos preços das montadoras. Sendo assim, o que nos resta?

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