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Jornalista registra em fotos a dura rotina dos caminhoneiros

Mariana Kateivas, 21, conheceu de perto a realidade dos caminhoneiros quando estagiava no Grupo G10, uma das maiores empresas de transporte rodoviário do País. Dos motoristas, ouvia reclamações, comentários e detalhes sobre o dia a dia na estrada, que – notou – carecia de mais registros. Amante da fotografia, Mariana decidiu fazer da rotina suada dos caminhoneiros o tema de seu trabalho de conclusão de curso em jornalismo.

“Eles (motoristas) sempre me contavam sobre as viagens, dificuldades, aquilo que gostavam na profissão, etc, mas eu sabia que nem todo mundo tinha essas informações e que por meio da oralidade seria mais difícil transmitir todas estas histórias. Logo, vi a oportunidade de usar a linguagem visual para transmitir essas informações, da vida de caminhoneiro”, conta a jornalista.

Para conseguir os registros que deram origem ao trabalho (Vi)vendo na boleia: um fotodocumentário sobre a vida de caminhoneiro, Mariana passou nove dias na boleia do caminhão, em julho de 2015, entre estradas do Paraná, Mato Grosso e Santa Catarina. Rodovias em mau estado de conservação, manobras arriscadas e pontos de parada insalubres foram algumas das situações vivenciadas pela jornalista, que presenciou, igualmente, os fortes laços de amizade que se formam na estrada.

Mariana Kateivas

Confira nosso papo com Mariana.

AUTOS PAPOS: Como nasceu a ideia de fazer um registro fotográfico sobre a rotina dos caminhoneiros?

MARIANA KATEIVAS: No 4º ano da faculdade temos de fazer o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), então, comecei a pensar em diversos temas que eu poderia trabalhar. Como gosto muito de fotografia, queria fazer algo nessa área e sempre me questionava sobre a relevância dos temas que colocava em pauta. Conversando com o meu chefe, gerente de comunicação do G10, ele sugeriu que eu fizesse algum trabalho que envolvesse a empresa, pois facilitaria em alguns levantamentos de informações e ainda poderia ser uma oportunidade de conhecer melhor o setor de transporte. Certo dia eu comecei a ler um livro sobre o perfil do caminhoneiro, com várias informações interessantes sobre o setor, além de constar o resultado de uma pesquisa feita com mais de 1.500 motoristas de caminhão. Achei o material muito bom, mas percebi que faltava imagens. Foi aí que tive a ideia de unir a fotografia e a vida de caminhoneiro. Eu já sabia da importância desse profissional para a economia, mas, ao mesmo tempo, também sabia que muitos deles são desvalorizados e passam por diversas situações difíceis nas estradas.

AP: Por que o tema te atraiu?

MK: O tema me atraiu por diversos fatores, entre eles, o fato de perceber que muitas pessoas criticavam a paralisação dos caminhoneiros sem nem sequer saber as reivindicações deles (ocorreu no começo do ano passado, perto da época em que eu deveria escolher o tema do TCC). Outro ponto é o fato de que é uma profissão “de longe”, ou seja, a comunidade não sabe como realmente é o ambiente de trabalho e o cotidiano do motorista de caminhão. Por exemplo, é mais fácil você conhecer a rotina de trabalho de um mecânico, você pode ir em uma oficina e conhecê-la, mas com o caminhoneiro não é assim. A maioria das pessoas não tem a facilidade de viajar na boleia de uma caminhão e conhecer sobre o dia a dia dessa profissão.

As fotos de Mariana estarão em exposição no espaço cultural do Shopping Avenida Center, em Maringá, entre os dias 19 de fevereiro e 8 de março.

Mariana Kateivas 4

AP: Qual roteiro e quantos dias de viagem você acompanhou?

MK: Saí de Maringá e fomos carregar o caminhão, com milho, em Diamantino (MT). O descarregamento foi no porto de São Francisco do Sul (SC). Carregamos novamente, com adubo, no porto de Paranaguá. Eles seguiram com a carga até Tangará da Serra (MT), mas na volta eu já fiquei em Maringá. A viagem foi feita do dia 7 ao dia 15 de julho de 2015, totalizando em 9 dias de viagem.

AP: Quais as principais dificuldades que você observou na rotina dos motoristas?

MK: Três questões me marcaram muito durante a viagem. Considero elas como as principais dificuldades. A primeira é o perigo no trânsito. Além da falta de infraestrutura em diversos trechos das rodovias, principalmente as do Mato Grosso, as imprudências dos motoristas são assustadoras. Ali, muitas rodovias estavam sendo duplicadas ou construídas no período em que eu estava viajando. Na maioria do caminho as pistas são simples e, principalmente, de Rondonópolis até Cuiabá o número e tamanho dos buracos são absurdos. Mesmo com pista simples e sem acostamento, vários caminhoneiros faziam ultrapassagens bastante arriscadas e corriam muito. Confesso que no trecho de Rondonópolis até Cuiabá fiquei com bastante medo, sem contar na demora para fazer esse percurso, pois o tráfego de caminhões é intenso e a maioria das pistas são simples.

A segunda é a falta de estrutura dos postos para atendimento dos motoristas. Alguns postos não tinham chuveiros para o motorista tomar banho, outros não tinha água quente e em um dos banheiros que fomos o banho frio custava R$ 5 (cinco minutos cronometrados) e o quente R$ 8 (cinco minutos cronometrado). (Leia mais sobre isso na resposta a seguir)

Informações levantadas pelo Sistema Nacional de Viação (SNV2) de 2014 apontam que existem, no País, uma rede de 1.751.868 quilômetros de estradas e rodovias, das quais apenas 11,58% são pavimentadas. Da malha pavimentada, 87% ainda são de pista simples e 40% não têm acostamento. (Dados do TCC da jornalista)

A terceira é a demora para o carregamento e descarregamento da carga, que pode levar um dia ou até uma semana. Na ida, quando fomos carregar em Diamantino, ficamos dois dias em uma fazenda esperando o carregamento. Durante esse tempo não há o que fazer. Na fazenda não tinha sinal e nem wi fi. Por outro lado, são nesses momentos que eles conhecem muita gente, pois passam a conversar com os outros motoristas. Os que tem costume, tomam tereré ou chimarrão enquanto participam de uma roda de conversa.
No descarregamento, em São Francisco do Sul, esperamos por um dia, mas lá foi pior, pois, na fazenda, você consegue ter uma noção de quando será chamado e no porto o motorista não consegue saber. Ou seja, os motoristas não sabem se dará tempo de ir tomar banho, preparar a comida ou tirar um cochilo. Como o porto funciona 24 horas, às vezes chamam pelo motorista em algumas horas ou depois de um dia.

Além disso, fiquei assustada com o assédio de usuários de crack na saída do Porto Paranaguá. Desde quando chegamos na cidade a motorista Viviane pediu para que eu guardasse a câmera, pois enquanto não conseguíamos ficar com o caminhão guardado em um posto, o risco de assalto na cabine era grande. Ela também pediu para que eu ficasse atenta aos retrovisores, para ver se não vinha alguém que pudesse assaltar a cabine.

Outro ponto, com certeza, é a distância da família e a solidão. Muitos caminhoneiros passam mais de 30 dias longe de casa e vivem sozinhos ali na boleia. Sem dúvida, essa é uma grande dificuldade destacada por eles.

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AP: Recentemente, foi atualizada a chamada Lei do Descanso, que prevê pontos de parada estruturados para os caminhoneiros. Você encontrou locais bacanas de parada, ou insalubres?

MK: Durante a viagem, principalmente no Mato Grosso, encontrei alguns pontos de apoio ao usuário, esses locais chamam “Serviço de Atendimento ao Usuário”. Quanto aos postos, passei em vários que não tinham nem papel higiênico e nem sabonete, estavam sujos e não tinham chuveiros. Mas também passei por postos que tinham banheiros limpos, chuveiros, churrasqueira para o motorista, lavanderia e um deles tinha até uma capela. Tudo depende da rota e se o motorista conhece o caminho que fará a viagem, para saber onde é melhor parar para descansar.

Como eles (os caminhoneiros que ela acompanhou) conheciam a rota, já sabiam de alguns postos bons para as paradas, em que tinham banheiros limpos e com o banho quente liberado (mas em um desses era obrigatório abastecer, pelo menos, 200 litros para utilizar). Na hora de dormir também era complicado, pois era preciso achar um lugar seguro para passarmos a noite. Eles contaram que quando não conhecem o lugar para onde vão a situação fica mais complicada. Se não conseguirem achar um posto seguro para dormirem, costumam correr risco de assalto.

De acordo com o Denatran, o modal rodoviário é responsável por cerca de 60% do transporte de carga no País. Além disso, estima-se que, em 2015, existiam dois milhões de caminhões no Brasil, sendo operados por três milhões de caminhoneiros. (Dados do TCC)

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AP: E quais pontos positivos da profissão você destacaria?

MK: Diria que, pelas informações que levantei e que vivenciei, o melhor da profissão é a oportunidade de conhecer lugares. Conversei com vários caminhoneiros e eles me contaram que já visitaram todos os Estados brasileiros. Eles contam que conhecem desde as praias do nordeste, até o friozinho do Rio Grande do Sul. Outro ponto é a sensação de liberdade que eles dizem sentir, por não estarem “presos” dentro de um escritório com quatro paredes. Além disso, também vi como ponto positivo a amizade que muitos caminhoneiros fazem na estrada. Durante o carregamento e descarregamento eles conversam e conhecem vários outros motoristas e desse ambiente surgem amizades. Se não surgir uma amizade duradoura, só o contato e a troca de experiências vale a pena.

AP: Que objetivos você espera alcançar com a divulgação das fotos?

MK: O principal objetivo deste trabalho sempre foi o de oferecer conhecimento sobre a profissão dos motoristas de caminhão por meio da linguagem visual, pois a fotografia facilita o acesso e é riquíssima em conteúdo. Do fundo do meu coração, espero que a comunidade passe a olhar caminhoneiro de uma maneira mais humana, depois de terem conhecido a realidade de vida desses profissionais com o fotodocumentário. Só podemos entender o próximo quando o conhecemos, por isso, todo tipo de conhecimento e informação é válida para descobrirmos mais sobre tudo aquilo que nos cerca. Com o universo dos caminhoneiros não é diferente, é preciso conhecê-los e reconhecê-los pelo trabalho que exercem, o qual é fundamental para o desenvolvimento do País.

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